Adriano Cotiglio, o Morcegão, e sua Toca

Adriano Cesar Cortiglio, conhecido também como Morcegão, abriu neste ano (2018) as portas de sua nova Toca Instrumentos Musicais, na Rua Deputado Otávio Lopes, 560, Centro de Limeira, após atender por mais de uma década na Rua Conselheiro Saraiva, 866, Centro. Muito conhecido pela maneira divertida como recebe seus clientes, num bate-papo com o site Limeirenses ele descreveu toda sua trajetória: adolescência, juventude, desejos profissionais e como foi seu ingresso na área de venda de instrumentos e equipamentos de som. Confira.


QUEM É ADRIANO CORTIGLIO

Na adolescência e juventude, trabalhei com meu pai, Paulo Cortiglio, e fazia recauchutagem e ressolagem de pneus na Pneutyres, atualmente no Jardim Anhanguera. Nesse meio tempo, me formei em processamento de dados na Einstein, em 1991, mas nunca exerci essa profissão.

Saí da Pneutyres para me alistar no Tiro de Guerra. Depois, atuei por cerca de nove meses na Centenário e, em 1997, ingressei na Philip Morris, onde trabalhei até 2000. Fui mandado embora uma semana após meu casamento, no dia 15 de abril de 2000.

Sempre toquei na igreja, desde os 13 ou 14 anos. Tocava violão e guitarra, mas, como guitarrista “brota” todo dia, na igreja tinha três guitarristas e não tinha nenhum baixista. Comecei a fazer o contra baixo na guitarra, até o dia em que achei melhor vender minha guitarra e comprar um baixo Tonante. Fiquei um ou dois anos com Tonante, que era ruim pra caramba – acho que todo mundo começou com um desse, eu não fui exceção.

Em 1990, comprei um baixo Giannini Stratosonic do sr. Lúcio Maiochi, na Musical Limeirense. Além de tocar na igreja durante a adolescência, eu já vendia e fazia muitos negócios com pedais e pedaleiras. Me recordo quando saiu a primeira pedaleira da Boss, a BE-5. Fiz troca com um amigo, que me deu uma maleta com seis pedais da Boss e ficou com aquela porcaria (risos). Depois, lançaram a ME-6, a ME-8 e também peguei toda a fase da Digitech, com as RP1, RP10 e RP12. Hoje, tem uma gama de pedal muito grande. Naquela época não havia muitos. Também vendia guitarras e baixos, pois o pessoal deixava em casa para eu vender. Já tinha esse feeling, mas nunca pensei que um dia eu teria minha própria loja.

Meu sonho de garoto, assim como a maioria que nasceu na década de 70, que viu o Rambo, Chuck  Norris, Van Damme, Bruce Lee e o Schwarzenegger, era ser sargento do Exército. Até passei num exame em 1994, mas alguns estados tinham mais prioridade, acabei desistindo.

O EMPREGO QUE MUDOU SUA VIDA E O NASCIMENTO DA TOCA
No dia 20 de novembro de 2000, o Agnaldo Bella me chamou para trabalhar na extinta Musical Limeirense. Fiquei por lá até 31 de dezembro de 2002. Foram dois anos onde aprendi tudo sobre instrumentos musicais e acessórios em geral. Meu aprendizado foi lá.

Trabalhar na Musical Limeirense foi minha maior escola na área da música. Eu tinha noção de guitarra, baixo e bateria. Mas acessórios, como peças de violino, de saxofone e outras partes de diferentes instrumentos, eu nem sabia que existiam. Devo muito ao Agnaldo Bella.

Em 2003, um amigo meu, o Fábio Bertolotto, me chamou para abrir uma loja de instrumentos musicais, a Asaph Music, que era na Rua Sete de Setembro, 630. Ele entrou com o dinheiro eu fazia as vendas. Ficamos cerca de um ano juntos.

As coisas de Deus não têm explicação. Quando o Fábio anunciou a venda, fiquei triste porque eu não tinha condições financeiras de comprá-la e também não queria ficar sem trabalhar. Por conta da falta de dinheiro, não tive coragem de dizer que tinha interesse em adquiri-la. Como eu iria falar para meu melhor amigo que queria comprar o negócio mas não tinha dinheiro?

Ele pediu para oferecer a loja para outras pessoas, mas ninguém aceitou. Falei a Deus que, se a loja fosse para ser minha, o Fábio ofereceria para mim. Mas tinha outra questão. Caso oferecesse, como eu iria pagar? Eu estava sem saída.

Um belo dia ele perguntou se eu queria comprar a loja. Ele iniciou o comércio com R$ 5 mil. Pegou alguns objetos, entre eles um cabeçote de contrabaixo que eu tinha, e no final da negociação, me ofereceu a loja por R$ 500 e ainda parcelou. Ele simplesmente se despediu e disse “a partir de hoje a loja é sua”.

O propósito de Deus naquele momento eu reconheço hoje. Se a Toca existe é primeiramente por causa de Deus. Depois, por meio do Fábio Bertolotto, meu primeiro amigo e um anjo colocado em minha vida. Conheci ele aos 7 anos e hoje temos 45, ou seja, 38 anos de amizade.  Em 18 de outubro de 2004 consegui meu próprio CNPJ e nasceu a Toca Instrumentos Musicais.

Morcegão e seu amigo Fábio


A TOCA E SUAS DUAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

Uma das características da Toca instrumentos é que muitas pessoas vão à loja não para comprar, mas para conversar com amigos e comigo. Se eu não tivesse loja de instrumentos musicais, abriria um bar, porque é o meu perfil. Gosto de conversar e brinco com as pessoas.

Alguns clientes entram aqui, perguntam algo e vão embora, o que é normal. Mas eu gosto de conhecer a história de vida das pessoas. Então, com outros, a gente começa conversar e o papo vai longe. Minha loja é um bar, uma igreja, terreiro de macumba, missa e culto, é tudo.

Muitos vêm para me ver. Tenho clientes que conheceram a loja em 2004, quando tinham entre 12 e 13 anos de idade, e voltam aqui para conversar. Alguns viraram médicos, advogados, engenheiros. Quando me encontram, falam que compraram a primeira guitarra ou violão comigo.

Há algum tempo, um rapaz chegou na loja e pediu para ficar aqui. Ele permaneceu na loja, apenas observando as pessoas tocarem instrumentos e tomou um café. Depois, antes de sair, avisou que, naquele dia, ele queria tirar a própria vida. Disse que tinha mudado de ideia após “colocar a cabeça no lugar”. Não sei quem é o rapaz até hoje. São coisas simples que me deixam agradecido a Deus, porque essa loja foi Ele quem me deu.

Família. Essa palavra resume o relacionamento entre a Toca e seus clientes. Os filhos dos clientes já começaram a frequentar. Esse é meu maior interesse, de transmitir música entre as gerações. Não é o dinheiro. O dinheiro a gente apenas usa para pagar conta.

Outra situação que é marcante na loja é a aceitação de instrumentos usados, e outros produtos, para a aquisição de outros. As trocas são a essência da Toca. Quando vejo que a pessoa e o instrumento que está aqui criaram um relacionamento, eu dou um jeito de os dois ficarem juntos.

Já peguei feijão, jaca, caixa de laranja e até botijão de gás como pagamento. Certa vez, um amigo meu tinha uma loja de R$ 1,99 e eu fiquei com a loja dele em troca de equipamento de som. Tinha prendedor, xícara, cueca de criança, fralda descartável, cabide e até caixa de fósforo. Imagina uma loja de R$ 1,99, tinha de tudo e fiz a troca. Outra vez, troquei um cabeçote Ciclotron num cavalo. Antes mesmo da Toca, quando eu estava na Musical Limeirense, troquei uma caixa de gaitas Free Blues com um filhote de Pitbull.

Não conheço ninguém que faz esses rolos. Essa característica a Toca não vai perder nunca. É claro que cada caso é analisado. Isso foi um diferencial que me ajudou a entrar no mercado, porque, para fazer o que todo mundo faz, já está cheio de gente.


O NOME “TOCA” E O APELIDO “MORCEGO”

O Adriano e o Morcego têm personalidades diferentes. O Adriano é um cara que cresceu na igreja, sempre viu um mundinho quadrado, bem reservado, que não gosta de exposição, mas ele cresceu e viu que as coisas não são assim, que as pessoas não são assim. Por um tempo, ele deixou mostrar uma pessoa meio fraca, muito medo, até que surgiu o Morcego.

O apelido surgiu quando eu trabalhava na Philip Morris. Todo cliente chato era Morcego. Às vezes, eu visitava outras regiões. Aí, eu chamava muitas pessoas de Morcego, mas não porque eram chatas, mas porque eu conhecia muita gente e não conseguia lembrar o nome de todo mundo. Aí comecei a chamar todo mundo de Morcego, e todos passaram a me chamar com esse apelido.

Esse apelido até teve influência na escolha do nome da loja. Eu precisar trocar o Asaph Music, que era o escolhido por meu amigo, por um nome de minha escolha. Não tinha nenhuma ideia.

O pessoal que visitava a loja dizia que iria se reunir na toca do Morcego, porque, sempre no final da tarde, o pessoal se reunia lá para tocar. E esse nome ficou: a Toca do Morcego. Era um nome simples, tem relação com música (pode ser do verbo “tocar”) e estava ligado ao apelido.

O nome é tão simples que, quando vou às feiras de música, o pessoal pergunta se o nome é Toca da Música ou Toca do Som. Respondo que é apenas “Toca Instrumentos Musicais”.

Apesar de a Toca está maior, a recepção dos clientes continua a mesma. Às vezes pessoas vêm dormir aqui e clientes que vão em outras lojas do Centro deixam filhos na Toca, por exemplo. Tem gente que não gosta de mim, mas eles falam que, mesmo assim, têm que vir na loja para, às vezes, assistirem ao “show” que faço, como jogar guitarras no chão e tacar fogo.

O LEGADO
Quando eu morrer, quero que seja quando eu estiver tomando uma xícara de café. Numa tarde de sábado, às 16h, numa poltrona bem gostosa, num clima frio e chovendo. Quero ser enterrado às 12h de uma segunda-feira, para dar trabalho. Quero que seja em clima de festa, com muita comida e com meus baixos todos pendurados ao lado. Todo mundo tocando instrumentos.

Eu quero ser lembrado não porque fui bom ou ruim, ou um simplesmente um cara muito louco. Meu desejo é que as pessoas se recordem porque tentei fazer a diferença, tentei mudar vidas, transformar pessoas. Quero ser lembrado porque, do nada, fiz uma loja.
Sou grato a Deus e aos meus amigos. A amizade é tudo. Um amigo me disse que a amizade nos leva onde o dinheiro não pode levar. Isso é verdadeiro.

Eu sou bom no que faço. Me empenho, faço com amor e com carinho. Eu amo tudo isso. Uma vez perguntaram o que eu faria se eu ganhasse na loteria. Eu disse que abriria uma loja maior ainda. Eu não fico sem fazer isso. Eu não sei fazer outra coisa e nem quero. Sou apaixonado pelo que faço. Pode ser a venda de um violão de R$ 200 ou um instrumento caríssimo. É a mesma emoção. Vendo sonhos. Quando uma criança compra uma guitarra, lá no quarto da casa dela a primeira música que vai tocar será Sweet Child o Mine, do Guns N’ Roses, e por cinco minutos, ela vai pensar que é o Slash.

Não tenho medo da morte, mas não quero morrer agora. Mas quero fazer algo antes que fique marcado. Tenho um chamado de Deus e meu sonho é montar uma orquestra com crianças carentes e jovens que queiram aprender a tocar um instrumento. Deus vai me segurar por aqui mais um pouquinho porque tenho esse propósito.  Ainda vai demorar para chegar esse “sábado”.

Um casamento tem música. Uma festa tem música. Filmes têm trilhas sonoras. A vida não tem graça sem música. Tudo faz música. Até o ronco de um carro está numa tonalidade. Na Palavra de Deus está escrito que essa é a única ciência que vai subir aos céus, porque lá também tem música. Sinto prazer em fazer parte disso.

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